Semiologia P2 — Estudo Integrado

Casos clínicos + teoria + imagens explicadas · Saulo · UNINOVE 4º período

1. Nervos Cranianos I a VI — olfato, visão, movimento ocular

Visão geral dos nervos cranianos
Visão geral dos 12 pares de nervos cranianos — você vai examinar todos em sequência.

Caso clínico 1 — Perda olfativa isolada

Mulher, 62 anos. Há 3 meses não sente o cheiro do café da manhã nem o perfume do marido. Nega trauma, nega queixas visuais. Refere que a comida "não tem gosto". Exame: pupilas iguais e fotorreagentes, movimentos oculares preservados, sem alteração facial.
🧠 Pense antes de ler

Qual nervo está em jogo? O que diferenciaria anosmia central (tumor subfrontal, por exemplo) de anosmia periférica (obstrução nasal, pós-viral)? Como você testaria no consultório?

Nervo em questão: NC I — olfatório. Teste-se cada narina separadamente, com narina contralateral ocluída, usando substâncias não irritantes (café, baunilha, sabonete). Nunca use amônia ou álcool — eles estimulam o trigêmeo, não o olfatório.

Técnica de exame do olfato
Técnica correta — narina por narina, olhos fechados, substâncias aromáticas.
Disfunções do olfato
Anosmia (ausência), hiposmia (redução), parosmia (percepção alterada), cacosmia (cheiro ruim constante).
PROVA: anosmia unilateral progressiva em adulto é sinal de alarme — pode ser meningioma da goteira olfatória. Anosmia pós-COVID é comum e geralmente bilateral.

Caso clínico 2 — Paciente com alteração de campo visual

Homem, 48 anos, motorista. Bateu com o carro "do nada" no retrovisor direito duas vezes no último mês. Refere que "não vê" objetos do lado direito. Acuidade visual 20/20 em ambos. Ao confronto: perde o campo temporal direito e o campo temporal esquerdo.
🧠 Pense antes de ler

Qual o nome desse padrão? Onde é a lesão? Por que o problema é temporal bilateral e não um olho todo?

Hemianopsia bitemporal → lesão no quiasma óptico (fibras nasais que cruzam). Causa clássica: tumor hipofisário (macroadenoma) comprimindo o quiasma de baixo para cima.

Campos visuais e lesões
Mapa essencial: cada nível da via óptica gera um padrão de defeito campimétrico diferente.
Técnica do campo por confrontação
Campo por confrontação — comparar seu campo com o do paciente, dedo por quadrante.
Acuidade visual
Sempre testar cada olho separadamente, com correção óptica se houver.

Caso clínico 3 — Anisocoria

Homem, 72 anos, hipertenso. Trazido ao PS com cefaleia súbita intensa e vômitos. Exame: pupila direita midriática (6 mm), não reativa à luz; pupila esquerda 3 mm reativa. Ptose palpebral direita. Glasgow caindo.
🧠 Pense antes de ler

Que nervo está acometido? Qual estrutura vascular está perto dele? Por que isso é emergência?

Paralisia do NC III (oculomotor) direito por compressão — sinal de herniação uncal. Pode ser por aneurisma de comunicante posterior ou por efeito de massa (HSA, HIP). As fibras parassimpáticas pupilares correm externamente no III par — por isso a midríase vem antes da paralisia motora completa (sinal de Hutchinson).

Anisocoria claro x escuro
Anisocoria que aumenta no escuro → problema na pupila pequena (Horner, por exemplo). Que aumenta no claro → problema na pupila grande (paralisia do III, Adie).
Pupila de Hutchinson
Pupila de Hutchinson — midríase fixa = compressão do III par = emergência neurocirúrgica.
Síndrome de Horner
Horner = miose + ptose + anidrose ipsilateral (lesão simpática cervical — Pancoast, dissecção de carótida).
Argyll-Robertson
Argyll-Robertson = pupilas miótica que não reagem à luz mas reagem à acomodação — clássico da neurossífilis.
Função pupilar
Simpático (dilata) × parassimpático (contrai) — sempre testar reflexo fotomotor direto e consensual.
Via do reflexo fotomotor
Via do reflexo fotomotor — aferência: NC II (retina → núcleo pré-tectal); eferência: NC III (Edinger-Westphal → gânglio ciliar → esfíncter da íris).

Caso clínico 4 — Diplopia

Mulher, 55 anos, diabética. Há 3 dias acordou com visão dupla. A diplopia desaparece quando tampa qualquer um dos olhos. Ao exame: olho direito desviado para fora e para baixo, ptose palpebral completa, pupila dilatada não reativa.
🧠 Pense antes de ler

Qual nervo? Por que o olho fica "para fora e para baixo"? Como você diferencia paralisia do III diabética (poupa pupila) da compressiva (mídríase fixa)?

Paralisia do NC III direito completa. Como o III inerva reto medial, superior, inferior e oblíquo inferior, quando ele falha o olho fica sob ação do reto lateral (VI) + oblíquo superior (IV)"down and out".

Regra de ouro: paralisia de III em diabético poupa a pupila (isquemia do núcleo, fibras parassimpáticas externas preservadas). Paralisia de III com midríase = compressiva até prova em contrário.
Músculos e nervos oculares
LR6SO4, resto III — reto lateral pelo VI, oblíquo superior pelo IV, resto tudo pelo III.
H do olhar
"H do olhar" — testar as 6 posições cardeais do olhar.
Paralisia do NC III
Paralisia do III — olho down and out, ptose, midríase.
Paralisia do NC VI
Paralisia do VI — olho não abduz, diplopia horizontal (pior no olhar lateral).
Paralisia do NC IV
Paralisia do IV — diplopia vertical pior ao olhar para baixo (descer escada); paciente inclina a cabeça para o lado oposto (sinal de Bielschowsky).

Caso clínico 5 — Neuralgia do trigêmeo

Mulher, 68 anos. Há 4 meses sente choques elétricos fulminantes na bochecha direita ao escovar os dentes, mastigar ou passar brisa no rosto. Dura segundos, volta várias vezes ao dia. Entre as crises: sem dor, exame neurológico normal.
🧠 Pense antes de ler

Qual nervo? Qual ramo mais afetado? Como diferenciar de cefaleia em salvas? Tratamento de 1ª linha?

Neuralgia do trigêmeo (NC V). Mais comum em V2 (maxilar) e V3 (mandibular). Gatilhada por estímulo tátil em zona de trigger. Primeira linha: carbamazepina.

Nervo trigêmeo
V1 oftálmico (testa/córnea), V2 maxilar (bochecha), V3 mandibular (queixo/língua anterior).
Exame sensorial do V
Testar tátil (algodão) e dolorosa (palito) nos 3 territórios — comparar D × E.
Exame motor do V
Palpar masseter e temporal contraindo; desvio da mandíbula para o lado paralisado ao abrir a boca.
Reflexo corneopalpebral
Reflexo corneopalpebral — aferência V1, eferência VII. Útil em paciente rebaixado.

2. Nervos Cranianos VII a XII — face, audição, fala e deglutição

Caso clínico 6 — Paralisia facial

Homem, 35 anos, saudável. Acordou com "boca torta" para a esquerda. Não consegue franzir a testa direita, fechar o olho direito nem assobiar. Refere sensação de gosto alterado na metade anterior da língua. Sem alteração de força em membros.
🧠 Pense antes de ler

Paralisia central ou periférica? Como diferenciar? Se a testa está paralisada, é qual? E se ele tivesse AVC, o que mudaria?

Paralisia facial periférica direita (paralisia de Bell). Acomete toda a hemiface, porque a lesão é no nervo facial propriamente dito. Na paralisia central (AVC), só a metade inferior da face contralateral é afetada — a testa é preservada porque recebe inervação bilateral.

Regra da testa: testa paralisada = periférica (lesão no nervo). Testa preservada = central (lesão supranuclear — AVC).
Paralisia facial central x periférica
Central × Periférica — a diferença está na testa.
Nervo facial
VII — motor (expressão), gustação (2/3 anteriores da língua, via corda do tímpano), parassimpático (lácrima, saliva).
Exame motor do VII
Pedir: franzir testa, fechar olhos com força, mostrar dentes, assobiar, encher bochechas.
Sinal de Bell
Sinal de Bell — ao tentar fechar o olho paralisado, o globo ocular vira para cima (achado normal, só visível na paralisia periférica).

Caso clínico 7 — Vertigem rotatória com nistagmo

Mulher, 58 anos. Há 3 dias, ao virar na cama, tem episódios de vertigem rotatória com duração de ~20 segundos. Tem náuseas mas não vômitos. Ao exame: nistagmo horizontal que bate para a direita, piora olhando para a direita. Audição preservada.
🧠 Pense antes de ler

Vertigem central ou periférica? Que características do nistagmo diferenciam? Manobra que confirma VPPB?

Periférica (VPPB provável). Central: nistagmo vertical/multidirecional, sem fadiga, com sinais neurológicos associados. Periférica: nistagmo horizontal-rotatório unidirecional, com fadiga, com sintomas auditivos em alguns casos. Manobra de Dix-Hallpike confirma VPPB do canal posterior.

Tipos de nistagmo
Tipos — fisiológico, vestibular, central, congênito.
Classificação de nistagmo
Sempre descrever: direção, amplitude, gatilhos, fadigabilidade.

Caso clínico 8 — Disfagia e desvio de úvula

Homem, 70 anos, tabagista, etilista. Há 2 meses com disfagia progressiva para sólidos, engasgos frequentes, voz anasalada. Ao exame: ao pedir "AH", a úvula desvia para a esquerda; reflexo do vômito ausente à direita.
🧠 Pense antes de ler

Que nervos estão em jogo? Por que a úvula desvia? Para que lado? O que procurar na história?

Lesão de NC IX (glossofaríngeo) e NC X (vago) direitos. A úvula é puxada pelo lado são — como o lado direito está paralisado, ela desvia para a esquerda. Em tabagista/etilista pense em neoplasia de cabeça e pescoço ou metástase de base de crânio.

Regra: úvula desvia para o lado são. Língua desvia para o lado da lesão. Trapézio/ECM: fraqueza no ombro ipsilateral à lesão do NC XI.

Caso clínico 9 — Atrofia e desvio da língua

Mulher, 60 anos. Há 6 meses com disartria progressiva. Ao pedir que coloque a língua para fora: língua desvia para a direita, com atrofia e fasciculações do lado direito.
🧠 Pense antes de ler

Qual nervo? Se tem atrofia + fasciculação, é NMS ou NMI? Pensar em que diagnóstico?

Lesão de NC XII (hipoglosso) direito, padrão de NMI (atrofia + fasciculação). Em contexto progressivo, bilateral, com outros sinais bulbares → ELA (esclerose lateral amiotrófica).

Tabela músculos × nervos
Resumão — qual músculo é inervado por qual nervo craniano.

3. Sistema Motor — NMS × NMI, tônus, força

Caso clínico 10 — Hemiparesia súbita

Homem, 65 anos, hipertenso e diabético. Há 2 horas, assistindo TV, começou com fraqueza súbita no dimídio direito. Ao exame: força 2/5 em MSD e MID, tônus inicialmente reduzido, reflexos aumentados à direita, Babinski presente à direita. Fala arrastada.
🧠 Pense antes de ler

Lesão de NMS ou NMI? Por que o tônus está baixo se é NMS? Qual o lado da lesão cerebral? E o paciente tem "janela" pra trombolizar?

AVC isquêmico esquerdo → hemiparesia direita. Como a lesão é acima da decussação, déficit é contralateral. Na fase aguda, lesão do NMS pode começar com hipotonia e hiporreflexia (choque espinhal/cerebral); evolui depois para hipertonia espástica + hiperreflexia. Babinski presente já indica NMS.

Lesão do NMS (1º neurônio)Lesão do NMI (2º neurônio)
LocalizaçãoCórtex, cápsula interna, tronco, medula (acima do corno anterior)Corno anterior, raiz, plexo, nervo periférico
TônusHipertonia espástica (após fase aguda)Hipotonia ("flácida")
ReflexosHiperreflexia + clônusHiporreflexia ou arreflexia
BabinskiPresenteAusente
AtrofiaLeve (desuso, tardia)Precoce e marcante
FasciculaçõesAusentesPresentes (marca do 2º neurônio)
DistribuiçãoHemicorpo, paraplegia, tetraplegiaTerritorial (raiz, nervo)

Escala de força (0 a 5) — decorar

GrauO que o paciente consegue
0Nenhuma contração
1Contração visível, sem movimento
2Movimento no plano horizontal (não vence gravidade)
3Vence a gravidade, mas não resistência
4Vence gravidade e resistência, mas reduzida
5Força normal

Caso clínico 11 — Fraqueza sutil só aparente na prova

Mulher, 40 anos. Queixa-se que a mão direita "perdeu firmeza". Força 5/5 no teste convencional. Você faz a manobra de Mingazzini de MMSS por 2 minutos: surge adução dos dedos → pronação → queda progressiva do braço direito.
🧠 Pense antes de ler

O que essa sequência significa? É paresia ou resistência voluntária? Por que 2 minutos?

Paresia discreta do NMS à direita. Mingazzini/Barré detectam déficit sutil que passa despercebido em testes rápidos. A sequência clássica "adução dos dedos → pronação → queda" é típica de lesão piramidal.

PROVA: segure o teste por no mínimo 2 minutos. E sempre descreva a sequência.

Topografia da fraqueza

PadrãoDescriçãoOnde pensar
Monoparesia1 membroLesão periférica focal, cortical localizada
HemiparesiaMSD + MID (ou MSE + MIE)Lesão cerebral contralateral (AVC)
ParaparesiaMMII apenasLesão medular torácica/lombar
Tetraparesia4 membrosLesão medular cervical alta, polineuropatia, miopatia

Tônus — hipertonia piramidal × rigidez extrapiramidal

Espasticidade (piramidal)Rigidez (extrapiramidal)
ViaNMS/corticoespinalGânglios da base (Parkinson)
Padrão"Canivete" — resistência inicial que cede"Cano de chumbo" — resistência uniforme; ou "roda denteada" se tremor associado
DistribuiçãoFlexores MS + extensores MIUniforme
Melhora com distração?NãoNão (hipertonia voluntária melhora)

4. Reflexos e movimentos involuntários

Caso clínico 12 — Reflexos assimétricos

Paciente com suspeita de AVC há 24 horas. Patelar D 3+ (vivo, área expandida, contração de grupos adjacentes), Patelar E 2+ (normal). Clônus de tornozelo direito presente. Babinski à direita.
🧠 Pense antes de ler

O que esse conjunto indica? Por que o clônus aparece? E por que 3+ vale mais como assimetria do que como valor absoluto?

Conjunto sugere síndrome piramidal à direita (NMS). Clônus = reflexo repetido por perda da inibição supraespinhal. A assimetria é o que mais importa — muita gente tem reflexos "vivos" fisiologicamente.

Escala de reflexos (0 a 4+)

GrauInterpretação
0Ausente
1+Diminuído / hipoativo
2+Normal
3+Vivo (área aumentada, contração de grupos adjacentes)
4+Exaltado + clônus

Técnica — o que não pode errar

Movimentos involuntários — saber descrever

TipoCaracterísticaOnde pensar
Tremor de repousoOscilação rítmica com o membro relaxadoParkinson
Tremor posturalAparece ao sustentar postura (braços estendidos)Tremor essencial, ansiedade, hipertireoidismo
Tremor de ação/intençãoPiora ao se aproximar do alvoLesão cerebelar
CoreiaMovimentos rápidos, irregulares, "dançantes"Huntington, Sydenham
BalismoArremessos amplos e bruscos de um membroLesão do núcleo subtalâmico
TiquesMovimentos/vocalizações súbitos, repetitivos, suprimíveisTourette

5. Sinais meníngeos · Cauda equina × Cone medular

Caso clínico 13 — Febre + cefaleia + rigidez de nuca

Jovem, 22 anos, universitário. Há 12 horas com febre alta (39°C), cefaleia holocraniana intensa, fotofobia e vômitos. Ao exame: rigidez de nuca franca, Kernig positivo, Brudzinski positivo. Glasgow 14.
🧠 Pense antes de ler

O que esses sinais significam? Próximo passo? Se os sinais fossem negativos, você descartaria meningite?

Suspeita de meningite bacteriana — conduta: hemoculturas, punção lombar imediata (se não houver contraindicação), início empírico de antibiótico. Kernig: com quadril flexionado a 90°, tentar estender o joelho → dor/resistência. Brudzinski: ao fletir o pescoço, o paciente flete joelhos reflexamente.

PROVA: sinais negativos NÃO descartam meningite. Idosos, imunossuprimidos e crianças podem não ter sinais meníngeos clássicos.

Caso clínico 14 — Lombalgia e retenção urinária

Homem, 45 anos. Lombalgia há 3 dias, hoje acordou sem conseguir urinar. Ao exame: fraqueza assimétrica em MMII (pior à direita), hipoestesia em sela (região perineal), reflexo anal ausente, hiporreflexia aquileu D. Dor lombar intensa.
🧠 Pense antes de ler

Cauda equina ou cone medular? Por que assimetria aponta pra raiz? Por que é emergência?

Síndrome da cauda equina — lesão das raízes abaixo de L1-L2 (a medula termina em L1-L2; o restante é cauda equina). Padrão de NMI: hipotonia, hiporreflexia. Emergência cirúrgica — descompressão em até 48h pra evitar sequela esfincteriana definitiva.

Cauda equinaCone medular
NívelAbaixo de L1-L2 (raízes)L1-L2 (medula terminal)
DorIntensa (dor radicular)Pouca ou ausente
SimetriaAssimétricaSimétrica, bilateral
Padrão neuralNMI puro (raízes)Misto NMS + NMI (medula + raízes S)
EsfíncterTardioPrecoce
Reflexos MMIIArreflexiaAquileu ausente, patelar preservado

Sinal de Lasègue

Com paciente em decúbito dorsal, joelho estendido, eleva-se passivamente o MI. Positivo se dor irradiada para a perna entre 30-70°. Sugere radiculopatia lombossacra (hérnia de disco L4-L5 ou L5-S1 é a causa mais comum).

6. Síndromes Pulmonares — consolidação, pleural, brônquica

Regra mestra: síndrome primeiro, etiologia depois. Queixa → exame → síndrome → hipótese etiológica → imagem direcionada.

Caso clínico 15 — Consolidação

Homem, 60 anos. Há 3 dias com febre alta, tosse com expectoração ferruginosa, dor torácica em pontada ao respirar. Exame: FTV aumentado em base direita, macicez focal à percussão, estertores crepitantes e sopro tubário na mesma área. SpO₂ 91%.
🧠 Pense antes de ler

Qual síndrome? Por que FTV aumenta? Por que hipoxemia pode vir antes de hipercapnia? Próximo exame?

Síndrome de consolidação (provável pneumonia lobar pneumocócica). Alvéolos preenchidos conduzem melhor o som → FTV ↑, broncofonia, sopro tubário. Hipoxemia vem antes porque O₂ difunde pior que CO₂ na consolidação. RX: opacidade + broncograma aéreo.

Caso clínico 16 — Síndrome pleural

Mulher, 70 anos, com insuficiência cardíaca. Há 1 semana com dispneia progressiva. Exame: FTV diminuído em base esquerda, macicez com parábola de Damoiseau, MV abolido, sem sopro tubário.
🧠 Pense antes de ler

Qual síndrome? Por que FTV diminui? O que é a parábola? Diferencia de pneumotórax como?

Derrame pleural. Líquido entre pulmão e parede amortece a transmissão → FTV ↓, MV ↓. A parábola de Damoiseau é a linha superior côncava do derrame. Pneumotórax: FTV também ↓ mas percussão é timpânica (ar); derrame é maciça (líquido).

Caso clínico 17 — Síndrome brônquica

Mulher, 25 anos, asmática. Há 4 horas com dispneia, chiado, sensação de "aperto no peito". Exame: expiração prolongada, sibilos difusos, uso de musculatura acessória. Piora com expiração forçada.
🧠 Pense antes de ler

Qual síndrome? "Não entra" ou "não sai"? Por que silêncio auscultatório é sinal de gravidade?

Síndrome brônquica (crise asmática). O problema é expirar — brônquio fecha mais na expiração → aprisionamento aéreo → hipercapnia. Silêncio auscultatório = emergência (fluxo tão baixo que não faz som).

Quadro-síntese das 3 síndromes

AchadoConsolidaçãoDerrame pleuralPneumotóraxBrônquica
FTVNormal/↓
PercussãoMaciçez focalMaciçez (parábola)HipertimpanismoNormal
MV↓ + sopro tubário↓↓ / abolido↓↓ / abolido↓ difuso
Ruídos adventíciosEstertores crepitantes, broncofonia, egofoniaAtrito pleural (às vezes)AusentesSibilos, roncos, expiração prolongada
DorPleurítica (se pleura)Ventilatório-dependenteSúbita em pontadaAperto
RX clássicoOpacidade + broncograma aéreoApagamento de seio costofrênico + parábolaHiperluscência + linha pleuralHiperinsuflação, retificação de cúpulas

Dor pleurítica × dor parietal — dica de ouro

Parênquima pulmonar não dói; quem dói é pleura parietal e parede torácica. Observe como o paciente aponta: "um ponto exato" → parede torácica; "mão espalmada" → pleural/visceral.

Quando repetir RX na pneumonia?

7. Exame de Cabeça e Pescoço — roteiro prático

Sequência do exame

  1. Inspeção geral: fácies, simetria, lesões, assimetrias óbvias, abaulamentos.
  2. Crânio: forma, depressões, cicatrizes, pontos dolorosos.
  3. Olhos: pupilas (tamanho, simetria, reatividade), conjuntivas, escleróticas, movimentos extrínsecos.
  4. Ouvidos: pavilhão, trago doloroso, otoscopia se possível.
  5. Nariz: permeabilidade, secreção, desvio, seios paranasais dolorosos.
  6. Boca e orofaringe: lábios, mucosa jugal, gengivas, língua, palato, amígdalas, faringe (pedir "AH", observar úvula).
  7. Pescoço:
    • Inspeção: abaulamentos, massas, estase jugular.
    • Palpação: linfonodos em cadeias (submentoniana, submandibular, cervical ant/post, supraclavicular, jugular, pré e pós-auricular, occipital).
    • Tireoide: inspeção em repouso e deglutindo; palpação por trás com polegares, pedir pra engolir.
    • Carótidas: palpar uma de cada vez (nunca ambas!); ausculta para sopros.
    • Mobilidade cervical: flexão, extensão, rotação, inclinação.

Linfonodos — o que descrever

CaracterísticaSuspeito de malignidadeInflamatório/infeccioso
Tamanho>1 cm, progressivoVariável
ConsistênciaDuro/pétreoElástico ou amolecido
MobilidadeAderidoMóvel
DorIndolorDoloroso
NúmeroÚnico ou conglomeradoMúltiplos pequenos
TempoProgressão lentaAgudo, regride
Sinal de alarme: linfonodo supraclavicular endurecido e aderido — pensar em metástase (esquerdo = Virchow = tumor abdominal; direito = tumor torácico).

Tireoide

Caso clínico 18 — Massa cervical

Homem, 68 anos, tabagista 40 maços-ano, etilista. Nota há 2 meses "caroço" no pescoço direito. Ao exame: linfonodo cervical alto direito, 2,5 cm, endurecido, aderido, indolor. Exame de orofaringe sem lesão evidente. Halitose.
🧠 Pense antes de ler

Suspeita principal? Conduta?

Altíssima suspeita de neoplasia de cabeça e pescoço (carcinoma espinocelular de orofaringe, base de língua ou hipofaringe). Conduta: encaminhar para nasofibrolaringoscopia, biópsia, TC/RM. Jamais tratar como "linfadenite" e esperar.

8. Tipos de Choque — os 4 que vão cair

Conceito-chave: choque = falha de perfusão tecidual (DO₂ < VO₂). Não é apenas hipotensão — pode haver choque com PA preservada (fase compensada). Sempre avalie perfusão (pele, consciência, diurese, TEC, lactato).

Caso clínico 19 — Choque hipovolêmico/hemorrágico

Homem, 28 anos, vítima de acidente de moto. Trazido com fratura exposta de fêmur sangrando ativamente. Exame: pálido, sudoreico, taquicárdico (FC 130), PA 80x50, FR 28, TEC 5s, extremidades frias, jugular colabada, pulmão limpo, sonolento mas responsivo.
🧠 Pense antes de ler

Qual tipo de choque? Por que jugular colabada? Conduta inicial?

Choque hipovolêmico hemorrágico. Perda de volume → ↓ retorno venoso → jugular murcha. Conduta: controlar a fonte (compressão, torniquete) + acesso calibroso + cristaloide + transfusão precoce (protocolo de transfusão maciça se grave).

Caso clínico 20 — Choque cardiogênico

Homem, 53 anos, DM/HAS/dislipidemia. Família o achou de manhã sonolento após pequeno esforço (subir escada). Exame: extremidades frias, TEC 4s, sonolento (abre olho ao chamado e volta a dormir), estertores crepitantes bibasais, B3 audível, turgência jugular elevada, edema +/4 MMII. PA 85x60, FC 110.
🧠 Pense antes de ler

Qual tipo? Como o conjunto "frio + congesto + jugular alta + B3" muda tudo? Por que NÃO encher de volume?

Choque cardiogênico — provavelmente IAM extenso. Pista de ouro: hipoperfusão + congestão pulmonar + jugular alta + B3. Conduta: ECG/troponina → reperfusão (angioplastia/trombólise), suporte com inotrópico/vasopressor; cautela com volume (já está congesto). Não tratar como pneumonia só pelos estertores.

PROVA: taquicardia extrema piora o débito cardiogênico (reduz tempo de enchimento diastólico).

Caso clínico 21 — Choque obstrutivo

Mulher, 70 anos, pós-operatório de fratura de quadril (3º dia). Subitamente: dispneia, dor torácica, taquicardia (FC 140), PA 75x40, hipoxemia (SpO₂ 84%), turgência jugular alta, pulmão limpo à ausculta, extremidades frias.
🧠 Pense antes de ler

Qual tipo? Por que jugular alta com pulmão limpo? 3 causas clássicas?

Choque obstrutivo — TEP maciço. Algo "trava" o fluxo: as 3 causas clássicas são TEP maciço, tamponamento cardíaco e pneumotórax hipertensivo. Jugular alta + pulmão limpo é a pista que diferencia do cardiogênico. Conduta: angio-TC, anticoagulação, considerar trombólise.

Caso clínico 22 — Choque distributivo (séptico)

Idosa, 78 anos, com ITU complicada. Há 24h febril (39,5°C), confusa. Exame: PA 78x40, FC 130, FR 30, extremidades quentes e bem perfundidas inicialmente ("choque quente"), TEC <2s, jugular colabada, pulmão limpo. Lactato 5 mmol/L.
🧠 Pense antes de ler

Qual tipo? Por que extremidades quentes (diferente dos outros)? Conduta na 1ª hora?

Choque distributivo séptico. Vasoplegia → resistência vascular cai → fluxo periférico aumentado de início ("choque quente"). Em fase tardia pode virar "choque frio". Bundle da 1ª hora: hemoculturas → antibiótico empírico de amplo espectro → cristaloide 30 mL/kg → vasopressor (noradrenalina) se PA não responde.

Quadro-síntese — diferencial à beira do leito

TipoPele/extremidadesJugularPulmãoCausas clássicasConduta-chave
HipovolêmicoFria, pálidaColabadaLimpoHemorragia, queimadura, diarreia/vômitoControlar fonte + volume/sangue
CardiogênicoFria, sudoreicaAltaCongesto (estertores, B3)IAM, IC descompensada, arritmiaReperfusão + inotrópico (cuidado com volume)
ObstrutivoFriaAltaLimpo (geralmente)TEP maciço, tamponamento, pneumotórax hipertensivoTratar a obstrução (drenar/anticoagular)
DistributivoQuente (inicial), depois friaColabadaLimpo (exceto se foco pulmonar)Sepse, anafilaxia, neurogênicoATB precoce + volume + vasopressor

Sinais à beira-leito — sempre avaliar

Princípio de ouro da prova: identificar o tipo e tratar a causa. Não é só "subir a PA". Cada choque tem manejo específico.

📋 Ficha de Anamnese — modelo

O modelo de anamnese que você usa nas práticas. Útil pra ter como referência rápida na hora de fazer o caso clínico.

Estrutura básica da anamnese

  1. Identificação: nome, idade, sexo, raça/cor, profissão, naturalidade, procedência, estado civil, religião.
  2. Queixa principal (QP): motivo da consulta, em palavras do paciente.
  3. HMA (História da Moléstia Atual): início, evolução, fatores de melhora/piora, sintomas associados, tratamentos prévios.
  4. ISDA (Interrogatório Sintomatológico): revisão por sistemas (geral, cabeça, olhos, ouvidos, nariz, boca, pescoço, respiratório, cardio, GI, GU, músculo-esquelético, neuro, endócrino, hematológico, psíquico).
  5. Antecedentes pessoais: patológicos, cirúrgicos, alérgicos, medicações em uso, vacinação, transfusões.
  6. Antecedentes ginecológicos/obstétricos (se mulher).
  7. Antecedentes familiares.
  8. Hábitos de vida: alimentação, sono, atividade física, tabagismo, etilismo, drogas, sexualidade.
  9. Condições socioeconômicas: moradia, saneamento, animais, renda, escolaridade.

Revisão final — 10 regras de ouro para a prova

  1. Testa paralisada = periférica. Testa preservada = central.
  2. Úvula desvia para o lado são; língua desvia para o lado doente.
  3. Anisocoria que aumenta no claro → problema na pupila grande (III, Adie).
  4. Paralisia do III com midríase = compressão até prova em contrário.
  5. NMS: hipertonia, hiperreflexia, Babinski, SEM atrofia/fasciculação. NMI: hipotonia, hiporreflexia, COM atrofia/fasciculação.
  6. Acima da decussação → contralateral. Abaixo → ipsilateral.
  7. Mingazzini/Barré: 2 minutos. Sequência "adução dos dedos → pronação → queda" = NMS.
  8. Sinais meníngeos negativos NÃO descartam meningite.
  9. Cauda equina = raízes, assimétrico, dor intensa, esfíncter tardio. Cone = L1-L2, simétrico, pouca dor, esfíncter precoce.
  10. FTV ↑ = consolidação; FTV ↓ = derrame ou pneumotórax (percussão diferencia: maciça × timpânica).

Flashcards rápidos

O que diferencia paralisia facial central de periférica?
A testa: central preserva (inervação bilateral); periférica paralisa toda a hemiface.
Úvula desvia pra qual lado na lesão unilateral do X?
Para o lado SÃO (é puxada pelo músculo que funciona).
Paralisia do III com "down and out" + midríase fixa — o que é até prova em contrário?
Compressiva — pensar em aneurisma de comunicante posterior ou herniação uncal. EMERGÊNCIA.
Sinal de Hutchinson?
Midríase fixa ipsilateral por compressão do III par — marcador de herniação uncal.
FTV aumenta ou diminui na consolidação? E no derrame?
Aumenta na consolidação (sólido conduz melhor); diminui no derrame (líquido amortece).
Tríade de Horner?
Miose + ptose + anidrose ipsilaterais (lesão simpática cervical).
Por que paralisia de III diabética "poupa a pupila"?
Fibras parassimpáticas são externas; isquemia atinge o miolo (motor) e poupa a periferia (pupila).
Sinal de Virchow?
Linfonodo supraclavicular esquerdo aumentado — clássico de metástase de tumor abdominal (estômago).
Escala de força — grau 3?
Vence a gravidade, mas não a resistência do examinador.
Cauda equina × cone — qual tem dor mais intensa?
Cauda equina (raízes, com dor radicular forte). Cone tem pouca dor, mas esfíncter precoce.

Poucas objetivas estratégicas

Q1. Paciente com cefaleia súbita, pupila direita de 6 mm fixa e ptose ipsilateral. Conduta inicial mais adequada?

Q2. Paciente com úvula desviada para a esquerda. A lesão está no nervo:

Q3. Paciente com dispneia, FTV diminuído em base direita, macicez à percussão, MV abolido. Síndrome mais provável?

Q4. Paciente pós-AVC em fase aguda apresenta hemiparesia à direita, hiporreflexia ipsilateral e Babinski presente à direita. O mais correto é:

Q5. Lombalgia + fraqueza assimétrica em MMII + reflexo anal ausente + anestesia em sela + dor intensa. Diagnóstico topográfico?